Uma proposta de Márcio Polonês (Avante), candidato a deputado federal pelo número 7080, começa a tensionar um dos pontos mais sensíveis da saúde pública: o tempo de espera de pacientes com câncer. Batizada de “Fila Zero do Câncer”, a ideia que ele afirma pretender levar à Câmara dos Deputados, se eleito, parte de uma meta deliberadamente ambiciosa: impedir que a falta de capacidade de atendimento naquele momento deixe o paciente aguardando enquanto a doença avança. Ao colocar essa premissa no debate antes mesmo das urnas, Márcio assume a autoria política de uma discussão que tende a gerar uma pergunta difícil tanto para gestores quanto para o próprio candidato: como transformar a urgência clínica em capacidade real de atendimento?
O ponto mais contundente da proposta está justamente onde começa a controvérsia. Márcio sustenta que, se o SUS não tiver condições de absorver o atendimento naquele momento, deverá ser encontrada outra porta para o paciente. “Se meu projeto for aprovado, ninguém com câncer vai ficar esperando em uma fila porque o sistema não conseguiu atender. Se o SUS não tiver capacidade naquele momento, precisamos encontrar outra porta para esse paciente. O câncer não espera”, afirma. A formulação eleva o compromisso político, mas também aumenta o nível de cobrança sobre sua viabilidade, porque a própria pauta reconhece que a medida exigirá médicos, exames, estrutura hospitalar, financiamento e participação complementar da rede credenciada.
Márcio não evita essa tensão; ao contrário, procura transformá-la no eixo da proposta. O candidato cita experiências internacionais, especialmente mecanismos utilizados na Polônia para acelerar diagnóstico e tratamento oncológico, e diz querer provocar uma discussão sobre prioridades de gasto. Ao comparar o questionamento imediato sobre o custo da saúde com despesas corriqueiras de publicidade, ele desloca o debate do simples “de onde sairá o dinheiro?” para outra questão: onde os recursos públicos estão sendo colocados hoje. É uma estratégia política de alto risco, porque simplificações orçamentárias podem ser contestadas, mas também de forte impacto público, por obrigar a discussão a sair do campo abstrato e chegar à prioridade atribuída ao tempo de quem está em tratamento.
A autoridade que Márcio busca construir em torno do “Fila Zero do Câncer” não está, portanto, em apresentar uma solução já pronta — os próprios dados fornecidos não permitem afirmar isso —, mas em assumir publicamente uma meta e aceitar que ela seja submetida ao teste da viabilidade. “Se disserem que é impossível, quero que me mostrem por quê. Depois vamos sentar, fazer as contas e encontrar uma solução. O que não aceito é transformar espera em normalidade”, afirma. Essa posição dá à proposta um caráter de enfrentamento político: em vez de tratar a fila como consequência inevitável das limitações do sistema, ele pretende obrigar o debate a demonstrar tecnicamente quais obstáculos existem e quais alternativas podem ser construídas.
O “Fila Zero do Câncer” ainda precisará de análise técnica e, caso seja efetivamente apresentado, dependerá da tramitação e aprovação no Congresso. É justamente aí que a proposta deixa de ser apenas uma frase de campanha e passa a enfrentar seu verdadeiro teste: desenho jurídico, financiamento, capacidade instalada e articulação entre a rede pública e a rede credenciada. Até lá, Márcio Polonês já conseguiu colocar no centro da discussão uma provocação com força política e humana: diante de um diagnóstico de câncer, qual tempo de espera a sociedade considera aceitável — especialmente quando quem aguarda poderia ser alguém da própria família?

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