Um caso de erro médico gravíssimo volta a chocar o país. Alexandre Moraes de Lara, de 31 anos, faleceu no último domingo, 27 de abril de 2025, após permanecer quase três anos em estado vegetativo. A causa: uma superdosagem de propafenona administrada no Hospital Humaniza, na capital gaúcha, em outubro de 2021. O caso evidencia falhas críticas no sistema hospitalar e levanta novamente o debate sobre a segurança na administração de medicamentos em instituições de saúde.
O que aconteceu
No dia 21 de outubro de 2021, Alexandre procurou atendimento emergencial no Hospital Humaniza para tratar uma arritmia cardíaca. O cardiologista de plantão prescreveu a dose correta: 600 mg de propafenona, o equivalente a dois comprimidos. No entanto, devido a um erro operacional no pronto atendimento, foram administrados 6.000 mg da substância — dez vezes mais do que o indicado.
A superdosagem provocou uma intoxicação medicamentosa severa, seguida por convulsões e uma parada cardiorrespiratória. O quadro evoluiu para uma lesão cerebral irreversível, colocando Alexandre em estado vegetativo permanente.
O erro foi reconhecido e documentado no prontuário médico, em relatório assinado pelo próprio diretor-executivo do hospital. O documento confirma a divergência entre a prescrição médica, o sistema interno do hospital e o medicamento liberado pela farmácia.
Quase três anos em coma
Desde o incidente, Alexandre permaneceu internado no Hospital Humaniza. Sem recuperar a consciência em nenhum momento, seu quadro clínico era irreversível. Nos últimos dias de vida, apresentou sinais de agravamento respiratório, com queda de saturação. Foi iniciado então o uso de morfina para cuidados paliativos. O óbito foi confirmado às 14h01 do domingo. A certidão de óbito aponta intoxicação medicamentosa como causa da morte.
Na época do erro, sua esposa, Gabrielle Bressiani, estava grávida de três meses. A filha do casal, Sara, nasceu enquanto o pai já estava internado e cresceu sem poder conhecê-lo consciente. Hoje, a menina tem três anos.
“Ele sofreu a maior parte do tempo. Era um sofrimento para ele viver em cima da cama. Ele não tinha vida, só sobrevivia”, declarou Gabrielle, em entrevista.
Investigação e desdobramentos
A Polícia Civil investigou o caso e concluiu que houve lesão corporal gravíssima resultante de erro médico. A profissional responsável pelo atendimento foi indiciada por conduta culposa — ou seja, sem intenção, mas com negligência, imprudência ou imperícia.
O hospital reconheceu publicamente o erro e afirmou estar prestando apoio à família. Uma ação judicial foi movida pela esposa de Alexandre, buscando indenização por danos morais e materiais. O processo segue em andamento.
Nas redes sociais, o caso mobilizou milhares de pessoas. O perfil @justicaporalexandre, criado pela família, acumula mais de 119 mil seguidores e atua como uma espécie de memorial, além de ferramenta de pressão pública por justiça.
Reflexão
A morte de Alexandre Moraes de Lara expõe uma falha sistêmica e dolorosa. Mais do que um erro humano, trata-se de um alerta urgente sobre a importância de processos seguros e integrados na prescrição e dispensação de medicamentos. A tragédia também evidencia o impacto devastador que uma falha médica pode ter não só sobre a vítima, mas sobre toda uma família.
O caso segue sendo símbolo de luta por responsabilização e melhorias estruturais no atendimento médico no Brasil.
