Em uma manhã marcada por emoção e memória, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos anunciou oficialmente, no dia 16 de abril de 2025, a identificação dos restos mortais de Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva, dois desaparecidos políticos vítimas da ditadura militar brasileira. A revelação foi feita em coletiva realizada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sede do trabalho técnico do Projeto Perus, que há mais de três décadas se dedica à análise de ossadas encontradas na vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, na Zona Norte da capital paulista.
A vala clandestina de Perus, descoberta em 1990, continha mais de mil ossadas enterradas como indigentes. Entre elas, estavam corpos de vítimas da repressão política, sepultadas sem identificação como forma de apagar provas e memórias. Com a confirmação desta semana, chega a seis o número de desaparecidos políticos identificados pelo projeto, resultado de técnicas forenses avançadas, incluindo exames de DNA em parceria com laboratórios internacionais.
Quem eram as vítimas
Grenaldo de Jesus Silva, natural de São Luís (MA), servia como militar da Marinha. Após o golpe de 1964, foi expulso da corporação por lutar contra a ditadura. Preso por insubordinação, conseguiu fugir da prisão e viveu na clandestinidade, trabalhando como porteiro e vigilante. Em maio de 1972, Grenaldo participou de uma tentativa de sequestro de um avião no Aeroporto de Congonhas, com destino a Curitiba. O objetivo era fazer um protesto contra o regime. Baleado na cabeça durante a ação, morreu no local. Seu corpo foi sepultado como indigente na vala de Perus em 1º de junho de 1972.
Denis Casemiro, nascido em Votuporanga (SP), foi pedreiro, trabalhador rural e militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo de resistência armada contra a ditadura. Em 1967, mudou-se para São Bernardo do Campo, onde trabalhou como operário na Volkswagen. Atuou também politicamente no meio rural do Maranhão. Em abril de 1971, foi preso pelo delegado Sérgio Fleury, símbolo da repressão do regime. Torturado e assassinado nas dependências do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em São Paulo — hoje transformado em memorial — Denis teve sua morte forjada como resultado de uma suposta tentativa de fuga.
Projeto Perus: resgate de histórias silenciadas
O trabalho de identificação foi conduzido pelo Projeto Perus, uma iniciativa que une o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a Prefeitura de São Paulo e a Unifesp. Desde os anos 1990, equipes de antropólogos, peritos forenses e geneticistas trabalham na minuciosa tarefa de devolver nomes e histórias aos mortos pela ditadura.
Os familiares das vítimas já foram comunicados. As próximas etapas envolvem a entrega oficial dos restos mortais, documentos históricos e homenagens públicas. Para os parentes, é um momento de dor, mas também de alívio e justiça simbólica.
Um passo a mais na justiça de transição
A identificação de Denis e Grenaldo representa um marco importante no processo de justiça de transição, que busca enfrentar o legado de violações de direitos humanos cometidas por regimes autoritários. A busca pela verdade, memória e reparação é um compromisso que atravessa gerações, e a cada identificação, o Brasil dá um passo na reconstrução de sua história e na consolidação da democracia.
