Com a morte do Papa Francisco, a sucessão papal voltou a ser pauta no Vaticano e no mundo. Mas, além dos aspectos políticos e religiosos da escolha do novo pontífice, ressurgem com força as especulações em torno da figura mítica do chamado “papa negro” — uma expressão envolta em profecias, simbolismos e múltiplas interpretações.
Entre os nomes mais cotados para o conclave estão cardeais africanos como Peter Turkson, de Gana, e Robert Sarah, da Guiné. Ambos já figuraram em listas anteriores de papáveis, mas agora ganham mais destaque, não apenas pelo crescimento do catolicismo no continente africano, mas também por seu perfil respeitado dentro e fora da Igreja. Turkson é conhecido pelo trabalho em justiça social e diálogo inter-religioso, enquanto Sarah se destaca pela espiritualidade e defesa da tradição litúrgica.
A expressão “papa negro” é muitas vezes mal compreendida. Para alguns, ela se refere literalmente a um papa de pele negra. Para outros, trata-se de um símbolo mais amplo, como as vestes escuras dos jesuítas — ordem à qual Francisco pertencia, sendo ele o primeiro papa jesuíta da história. Há ainda interpretações que veem o termo como metáfora para uma fase de mudanças profundas ou até mesmo de crise na Igreja Católica.
Esse imaginário é alimentado por profecias antigas, como as atribuídas a São Malaquias, que sugerem que o atual ciclo papal está próximo do fim. Segundo essa tradição, o sucessor de Francisco seria o último papa — identificado como “Pedro, o Romano” — que lideraria a Igreja em tempos de grandes tribulações, antes do suposto “fim do mundo”.
As previsões de Nostradamus também são invocadas. Uma de suas quadras, de interpretação dúbia, menciona um líder religioso “de cor escura”, o que muitos relacionam à possibilidade de um papa africano ou, novamente, a um jesuíta. Para alguns intérpretes, essa figura marcaria o início de um período turbulento para a Igreja.
Apesar da fascinação popular, especialistas em religião e teologia alertam para o risco de tomar essas profecias ao pé da letra. A autenticidade da profecia de São Malaquias é contestada por historiadores, que apontam para possíveis manipulações no século XVI. Já os textos de Nostradamus, escritos em linguagem simbólica e aberta, são alvo de constantes releituras e uso indevido.
Do ponto de vista doutrinário, a Igreja Católica desencoraja qualquer especulação apocalíptica sobre seus líderes ou o fim do mundo. “A sucessão papal é um processo espiritual e humano, não um teatro de previsões catastróficas”, afirmou um teólogo ligado à Santa Sé.
Outras religiões também mantêm distância dessas associações. O islamismo e o judaísmo, por exemplo, têm suas próprias escatologias, sem ligação com o papado. Já algumas correntes evangélicas veem o papa como figura central em interpretações apocalípticas, mas essa leitura não é unânime nem consensual entre os protestantes.
O futuro da Igreja Católica está nas mãos dos cardeais eleitores. Se haverá um “papa negro” ou não, o tempo dirá. O que é certo é que a sucessão de Francisco será marcada não só por escolhas políticas e espirituais, mas também por um turbilhão de expectativas populares — e mitos ancestrais.
