O mercado imobiliário gaúcho, do Litoral Norte, com Capão da Canoa e Xangri-Lá, à Serra, com Gramado e Canela, e ao alto padrão de Porto Alegre, vive um momento de transformação: a sustentabilidade deixou de ser discurso para se tornar critério concreto de decisão de compra. O consumidor de hoje está mais informado do que nunca sobre a nocividade de vários produtos e já pergunta pelos detalhes que afetam a saúde da sua família. E não se trata apenas de consciência individual: existe a lei. O Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/1990, arts. 6º, III, e 8º a 10) determina que produtos e serviços não podem acarretar riscos à saúde ou à segurança do consumidor e garante o direito à informação.
A ciência é clara sobre os riscos do gás em ambientes fechados. Estudo publicado na Environmental Health Perspectives (Seltenrich, 2024) mostra que a combustão de gás natural e GLP libera dióxido de nitrogênio (NO₂), monóxido de carbono, metano e até benzeno e formaldeído, carcinógenos que podem exceder os padrões da EPA e da OMS e estão associados a maior risco de asma e doenças respiratórias. A revisão sistemática de Loureiro et al. (BMC Public Health, 2025) confirma que a má qualidade do ar interno, com CO₂, NO₂ e material particulado, está ligada a doenças respiratórias e cardiovasculares. Por isso, incluir metano via gás natural em novos empreendimentos pode gerar problemas cardiovasculares e, após a combustão, outras doenças respiratórias. E os gases não são os únicos emissores: a mesma revisão destaca que a poluição interna também vem dos materiais de construção e acabamento, móveis e produtos químicos, que liberam compostos orgânicos voláteis (VOCs) e formaldeído. Por isso, o mais importante agora é saber quais insumos os fornecedores usam para abastecer a obra e garantir, com rastreabilidade, que o consumidor possa verificar se todos os produtos são sustentáveis para o meio ambiente e para a saúde pública. A NR-15 (Anexo 11) ainda caracteriza insalubridade diante desses agentes químicos, o que reforça o dever das empresas de eliminar as fontes de risco na origem.
Um exemplo concreto do que já é possível vem do CRECI-RS, que aboliu o GLP da sede em Porto Alegre e das 17 delegacias no estado — incluindo Capão da Canoa, Gramado, Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Tramandaí e Torres — e publicou seu inventário de emissões de gases de efeito estufa (outubro de 2025), com 23,958 tCO₂e mitigadas, seguindo o Programa Brasileiro GHG Protocol e a NBR ISO 14064-1. O caso demonstra, na prática, que é possível operar sem queimar combustível fóssil e aponta a direção que o mercado já toma: empresas que buscam certificações reconhecidas, mensuram suas emissões e mostram essa transparência aos seus clientes constroem confiança e diferencial competitivo real.
A boa notícia é que pequenos investimentos já transformam a saúde e as emissões de um imóvel: a troca do fogão a gás por um fogão por indução, a adoção de energia renovável e a escolha de materiais de construção e móveis internos que liberam compostos orgânicos voláteis e formaldeído já podem melhorar em muito as emissões de gases e poluentes atmosféricos internos, protegendo a saúde da família. E o mercado já percebeu: o cliente já está perguntando sobre esses detalhes antes de fechar negócio.
E não paramos por aí. Quando a construção é feita para terceiros, como hospitais, hotéis e restaurantes, o item essencial é a inclusão de fogões e caldeiras elétricas, que não emitem esses gases e poluentes. Arquitetos atentos garantem a aceitação do cliente e abrem um grande potencial de mercado, prática que já ocorre em vários países do mundo, inclusive com a exclusão de itens na construção civil que não atendem aos padrões de saúde e sustentabilidade.
O movimento, porém, não pode parar nas empresas. As próprias prefeituras devem se atentar aos produtos que protegem a saúde pública na aprovação de projetos, condicionando licenças a soluções comprovadamente sustentáveis. Ao mesmo tempo, o novo esforço das agências de publicidade será encontrar referências de sustentabilidade nos produtos e serviços de seus clientes, que tratem da proteção da saúde e do meio ambiente, porque a sociedade começou a se informar, iniciando pela área médica — que já está à frente de movimentos para a proteção da saúde pública —, sobre a nocividade escancarada de vários produtos. A construção civil já começou, com energia renovável, telhados verdes e captação de água da chuva, mas, mesmo com todos esses esforços, precisaríamos de séculos para voltar a temperatura da Terra ao normal, o que torna cada decisão de hoje ainda mais decisiva. Quem se adianta lidera o padrão de um mercado que já entendeu que o imóvel do futuro é, antes de tudo, saudável, transparente, rastreável e sustentável. Diante de toda essa urgência, há uma oportunidade que não pode ser ignorada: a transição energética sustentável não é apenas um dever ambiental; é um novo e promissor mercado, capaz de transformar a construção civil e o mercado imobiliário gaúcho em protagonistas de um futuro mais saudável, mais lucrativo e mais sustentável.

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