A poluição do ar esteve associada a cerca de 709 mil mortes de crianças menores de cinco anos no mundo em 2021, o equivalente a 15% de todos os óbitos nessa faixa etária, segundo o State of Global Air 2024. Produzido pelo Health Effects Institute em parceria com o UNICEF e baseado em estimativas do Global Burden of Disease 2021, o relatório coloca a poluição do ar como o segundo principal fator de risco de morte entre crianças pequenas, atrás apenas da desnutrição, e amplia o alerta sobre a necessidade de tratar a qualidade do ar como tema permanente de saúde pública.
A vulnerabilidade infantil começa ainda na gestação. A exposição a poluentes está associada a maior probabilidade de parto prematuro e baixo peso ao nascer, condições que aumentam os riscos de infecções e outras complicações nos primeiros meses de vida. Depois do nascimento, crianças permanecem especialmente expostas porque pulmões, cérebro e sistema imunológico ainda estão em desenvolvimento, possuem vias aéreas menores e respiram mais ar proporcionalmente ao peso corporal do que os adultos. Infecções respiratórias inferiores, pneumonia, asma e outras doenças pulmonares aparecem entre os efeitos relacionados à exposição descritos pelas fontes reunidas no relatório.
Entre os poluentes de maior preocupação estão as partículas finas PM2,5, capazes de penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea. Veículos, atividades industriais, usinas, queimadas e a queima de combustíveis em residências estão entre as fontes apontadas. A poluição doméstica tem peso expressivo na infância: o State of Global Air 2024 estima que 507,5 mil das mortes globais de menores de cinco anos associadas à poluição do ar em 2021 estiveram ligadas a esse tipo de exposição. O cenário inclui ainda ozônio troposférico e dióxido de nitrogênio, comuns em ambientes urbanos e relacionados, entre outras fontes, ao tráfego.
No Brasil, um dado divulgado pela Sociedade Brasileira de Pediatria exige cautela editorial. A entidade informou que 169,4 mil mortes de crianças menores de cinco anos estariam associadas à poluição do ar, o que corresponderia a uma média de aproximadamente 465 óbitos por dia. Entretanto, no PDF oficial do State of Global Air 2024 consultado no relatório de apuração, o número de 169,4 mil aparece associado à Índia, e não ao Brasil. Até que a base original seja conferida diretamente com a SBP, o Health Effects Institute ou o IHME, a cifra brasileira não deve ser tratada como definitivamente confirmada. Além disso, os números do estudo são estimativas modeladas de carga de doença e não uma contagem direta de certidões de óbito.
A dimensão global do problema, porém, já é suficiente para sustentar uma agenda de prevenção. Monitoramento da qualidade do ar, redução da exposição a partículas finas e outros poluentes, políticas voltadas a ambientes mais seguros, transição para combustíveis mais limpos e proteção especial a gestantes, bebês e crianças aparecem como caminhos coerentes com as evidências apresentadas. Para o Brasil, o desafio inclui também qualificar os dados nacionais e diferenciar registros administrativos de estimativas epidemiológicas. O debate sobre poluição atmosférica deixa, assim, de ser apenas ambiental: envolve saúde, infância, planejamento urbano, energia e escolhas públicas capazes de reduzir riscos ao longo de toda a vida.

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