A indústria automotiva avança na recuperação de peças e matérias-primas de veículos em fim de vida, mas um desafio ganha importância à medida que a economia circular passa a integrar também estratégias industriais e exigências regulatórias: como acompanhar e comprovar, de maneira auditável, o caminho percorrido pelos materiais desde a desmontagem de um automóvel até sua eventual reinserção na cadeia produtiva. O debate coloca a rastreabilidade no centro de uma agenda que reúne sustentabilidade, tecnologia, competitividade e governança.
O tema é abordado no artigo “O Elo Perdido da Economia Circular Automotiva”, do pesquisador, inventor e bacharel em Direito Glauco Galdino de Freitas. O texto sustenta que a dificuldade da circularidade não está apenas na capacidade tecnológica de recuperar materiais, mas na ausência de uma estrutura compartilhada capaz de conectar informações produzidas pelos diferentes participantes da cadeia — entre eles montadoras, concessionárias, fornecedores de autopeças, oficinas, desmontadores, sucateiros, cooperativas e recicladores.
A discussão ocorre em um momento de transformação concreta do setor automotivo europeu. A Toyota Circular Factory, instalada em Burnaston, no Reino Unido, foi estruturada para processar inicialmente cerca de 10 mil veículos por ano, recuperando peças e matérias-primas. Em fevereiro de 2026, a Toyota Motor Europe anunciou uma segunda fábrica circular, em Wałbrzych, na Polônia, com previsão de processar aproximadamente 20 mil veículos em fim de vida anualmente. As informações constam de publicações oficiais da montadora.
O ambiente regulatório também está mudando. Em junho de 2026, o Conselho da União Europeia adotou formalmente novas regras de circularidade para o projeto de veículos e a gestão daqueles que chegam ao fim da vida útil. Entre as determinações está a introdução progressiva de conteúdo reciclado nos plásticos utilizados na fabricação de veículos novos: pelo menos 15% após seis anos da entrada em vigor das regras, chegando a 25% após dez anos. O regulamento também estabelece responsabilidade financeira e organizacional dos produtores ao longo do ciclo de vida dos veículos.
É justamente nessa transição que a capacidade de produzir dados verificáveis passa a adquirir dimensão estratégica. O Parlamento Europeu prevê, entre outros pontos, metodologia harmonizada para cálculo e verificação do conteúdo reciclado. O acordo europeu também estabelece que uma parcela do plástico reciclado deverá ter origem em veículos em fim de vida ou em componentes recuperados durante sua utilização, fortalecendo a lógica de circuito fechado.
No artigo, Glauco Galdino propõe utilizar o VIN — Vehicle Identification Number, identificação individual de cada veículo — como ponto inicial de uma cadeia de rastreabilidade. A proposta é registrar o veículo que ingressa no processo de circularidade e associar sua identificação aos materiais recuperados, como alumínio, plástico e aço, criando registros durante desmontagem, triagem, transporte e reinserção produtiva. O objetivo descrito pelo autor é construir uma trilha capaz de permitir auditoria sobre origem e destino dos materiais.
Essa concepção deu origem, segundo o documento, ao VINronment, apresentado pelo autor como uma plataforma destinada a conectar o VIN do veículo à certificação dos materiais reciclados. Glauco afirma que o sistema utiliza hash SHA-256 na certificação e informa que a tecnologia está protegida pela patente BR 10 2026 020767 5, além da marca registrada sob o processo 945197225. Essas informações constam do artigo fornecido e são apresentadas como declarações e dados do próprio autor.
A proposta amplia o debate para além da destinação dos resíduos. Quando uma matéria-prima recuperada retorna ao processo produtivo, torna-se necessário saber não apenas quanto foi reciclado, mas também de onde veio, por quais etapas passou e onde terminou. Nesse cenário, rastreabilidade e certificação digital podem assumir papel relevante na governança ESG ao transformar etapas físicas da circularidade em informações passíveis de acompanhamento e verificação.
O artigo também estabelece uma conexão com o trabalho desenvolvido pelo Instituto Safeweb na certificação de práticas ESG. O autor menciona o Selo de Sustentabilidade com QR Code do Instituto ao construir uma analogia entre certificação ambiental e rastreabilidade de materiais, defendendo uma cadeia na qual informações possam acompanhar o fluxo físico dos recursos recuperados.
A questão ultrapassa, portanto, a reciclagem isoladamente considerada. As novas regras europeias associam circularidade à competitividade industrial, redução da dependência de matérias-primas primárias e fortalecimento do mercado de matérias-primas secundárias. A própria regulamentação europeia passa a considerar o ciclo completo dos veículos, desde sua concepção e produção até o tratamento ao final da vida útil.
Nesse contexto, a discussão proposta por Glauco Galdino aponta para uma mudança de perspectiva: materiais recuperados deixam de ser observados exclusivamente como resíduos e passam a integrar uma cadeia de valor que exige identificação, dados, controle e capacidade de comprovação. Para empresas, instituições e agentes comprometidos com ESG, o desafio passa a ser fazer com que a circularidade possa ser não apenas realizada, mas também demonstrada por evidências verificáveis.
A economia circular automotiva entra, assim, em uma etapa na qual sustentabilidade, tecnologia e estratégia industrial tendem a caminhar de forma cada vez mais integrada. Recuperar materiais continua sendo essencial. Saber sua origem, acompanhar seu percurso e comprovar seu retorno à cadeia produtiva acrescenta uma nova dimensão à agenda: transformar circularidade em informação confiável, mensurável e auditável.
Fontes consultadas
- Artigo “O Elo Perdido da Economia Circular Automotiva”, de Glauco Galdino de Freitas. • Toyota Motor Europe / Toyota UK — Toyota Circular Factory. • Toyota Motor Europe — investimento na fábrica circular de Wałbrzych, Polônia. • Conselho da União Europeia — regras para circularidade e veículos em fim de vida. • Parlamento Europeu — requisitos de circularidade para veículos e conteúdo reciclado.
- Veja o Artigo completo em: https://cdn.prod.website-files.com/68f61a8939cd5e6157cc5e68/6abb1f448c9202ebdb511759_O%20Elo%20Perdido%20da%20Economia%20Circular%20Automotiva%20PDF.pdf

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