As declarações da vereadora Mariana Lescano (PP), que classificou a morte do Papa Francisco como uma "limpeza espiritual", acirraram os ânimos no plenário da Câmara Municipal de Porto Alegre e provocaram uma reação imediata da bancada progressista. Em resposta ao pronunciamento, Natasha Ferreira (PT) protocolou nesta terça-feira uma moção de solidariedade aos cristãos da cidade, destacando a necessidade de combater discursos de ódio e intolerância religiosa.
Lescano, conhecida por sua postura alinhada ao bolsonarismo, afirmou em plenário que o falecimento do pontífice argentino “marca o fim de uma era de distorções doutrinárias” dentro da Igreja Católica. Em sua fala, ela acusou o Vaticano de ter se curvado à influência do comunismo e do relativismo moral, sugerindo que a data da morte de Francisco — ocorrida um dia após a Páscoa — seria “um sinal divino de purificação espiritual”.
“Líderes que não estão alinhados à verdade e à fé serão retirados. É o tempo da restauração”, declarou Lescano, gerando murmúrios e protestos entre colegas.
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A reação foi rápida. Para Natasha Ferreira, as falas da vereadora extrapolam os limites da crítica política e religiosa, e representam um “desrespeito a um dos maiores líderes espirituais da atualidade”.
“Francisco sempre pregou a paz, a solidariedade e a justiça social. Atacar sua memória dessa forma fere não só os católicos, mas os valores democráticos que devemos preservar neste Parlamento”, afirmou Ferreira ao apresentar a moção de solidariedade, que também reafirma o compromisso com a liberdade de crença e o combate à intolerância.
A polarização se intensificou nas redes sociais, onde a vereadora do PP passou a ser apoiada por setores ultraconservadores, ao passo que lideranças religiosas e políticas de esquerda repudiaram suas declarações. A deputada estadual Luciana Genro (PSOL) comentou o caso nas redes:
“Esse é o retrato do projeto de ódio da extrema direita: transformar luto em discurso político para atacar os valores de humanidade que Francisco tanto defendeu.”
O episódio reabre o debate sobre os limites da liberdade de expressão no ambiente político, sobretudo quando envolve figuras religiosas com alcance global. Para especialistas, o caso evidencia uma crescente instrumentalização da fé por agendas ideológicas.
“Infelizmente, estamos vendo o avanço de uma retórica que não apenas desumaniza opositores, mas também distorce conceitos religiosos para justificar radicalismos”, analisa o sociólogo Rafael Seabra, professor da UFRGS.
A moção de solidariedade deve ser votada na próxima sessão da Câmara e já conta com o apoio de diversos vereadores do campo progressista e de entidades religiosas locais. O arcebispo metropolitano de Porto Alegre, Dom Silvio Tavares, publicou nota lamentando a "falta de compaixão no momento de luto" e pedindo “respeito à memória do Papa e à dor dos fiéis”.
Enquanto isso, Mariana Lescano mantém sua posição, afirmando que está sendo vítima de censura e reafirmando a necessidade de um novo papa “sem rabo preso com a esquerda”. A tensão promete perdurar, em um cenário político já marcado por polarizações intensas e disputas de narrativa.

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