Em uma declaração que incendiou as redes sociais e os corredores da Câmara Municipal, a vereadora Mariana Lescano (Progressistas), autointitulada conservadora e evangélica, causou revolta ao afirmar que a morte do Papa Francisco, ocorrida em 21 de abril de 2025, configura uma “limpeza espiritual” promovida por Deus. Para Lescano, “quem não cumpre o chamado será retirado”, e o falecimento do líder supremo do catolicismo seria uma expressão da purificação necessária para livrar a Igreja Católica da “influência comunista e progressista” infiltrada no alto clero.
Vestida com seu colete funcional de Polícia Penal e empunhando a Bíblia como escudo ideológico, a parlamentar bolsonarista não poupou teorias apocalípticas: “A Deus toda honra e glória! 2025 É NOSSO!”, bradou, sugerindo que o próximo papa deveria ser um guardião implacável dos valores cristãos tradicionais, “sem rabo preso com a esquerda”. O discurso extremista de Lescano, ocorrido em live transmitida em canal evangélico, coincidiu com a convenção pascal, reforçando seu argumento de que a data — um dia após a Páscoa — possui “simbolismo espiritual” que comprova a ação direta do Todo-Poderoso.
REPÚDIO E MOÇÃO DE SOLIDARIEDADE
Imediatamente, líderes políticos e religiosos saíram em defesa do respeito e da convivência. A vereadora Natasha Ferreira (PT) protocolou, na manhã desta quarta-feira, uma moção de solidariedade aos cristãos de Porto Alegre, classificando as falas de Lescano como “inaceitáveis” e “promotoras de ódio”. “Intolerância religiosa não cabe na esfera pública”, declarou Ferreira, lembrando que o Brasil é laico e que declarações como essa ferem o sentimento de milhões de fiéis.
O Arcebispo local também se manifestou, pedindo oração pela alma de Francisco e alertando para o perigo de discursos que “transformam tragédias em palanque político”.
INTOLERÂNCIA À FLOR DA PELE
O episódio reacende o debate sobre os limites da liberdade de expressão quando confrontados com o respeito às crenças alheias. Se, para Lescano, a “limpeza espiritual” é sinônimo de justiça divina, para muitos cidadãos é sinônimo absoluto de intolerância. A retórica do “Deus como escudo ideológico” serve como senha para legitimar ataques a minorias — e, desta vez, contra toda uma fé que conta com mais de um bilhão de seguidores no mundo.
Enquanto a Câmara debate a moção de repúdio e estuda eventuais sanções ao comportamento ofensivo, a sociedade porto-alegrense se pergunta: até onde vai a separação entre igreja e Estado? E qual o preço da “fé sem compromisso” quando ela serve apenas para exacerbar o ódio?
REFLEXÃO FINAL:
A morte de um líder espiritual deveria ser momento de união e respeito. Quando se transforma em pretexto para pregação de ódio, ultrapassamos o limite do aceitável. Se “tudo que é falso, com o tempo, será derrubado”, talvez seja hora de derrubarmos também as paredes da intolerância em nosso meio.

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