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Quarta-feira, 19 de Agosto 2026
Sustentabilidade

Quem trata é destratado: o ar que respiramos dentro de hospitais e casas, está adoecendo silenciosamente e ninguém sabia.

O alerta que a sociedade desconhece

Reporter Medeiros
Por Reporter Medeiros
Quem trata é destratado: o ar que respiramos dentro de hospitais e casas, está adoecendo silenciosamente e ninguém sabia.
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A maior desinformação da nossa era não está nas fake news que circulam nas redes, mas no ar que respiramos dentro de casa e do trabalho — onde passamos mais de 90% do nosso tempo. Estamos sendo destratados no lugar exato em que deveríamos estar mais protegidos: os hospitais. E o mais grave: quem trata é destratado. Enfermeiros, médicos, técnicos e demais profissionais de saúde passam turnos inteiros respirando um ar interno que, segundo as evidências científicas mais recentes, pode estar duas a cinco vezes mais poluído que o ar externo — e, em casos severos, até cem vezes mais. É esse cenário que o Dr. Airton Stein, epidemiologista, um dos pesquisadores que vem soando o alarme sobre os gases e poluentes atmosféricos internos, vai abordar no II Fórum Nacional de Educação Energética. Sua mensagem é dura e necessária: vivemos uma epidemia silenciosa de poluição indoor, e a sociedade sequer sabe que está sendo destratada — ou que está destratando, sem perceber, os próprios pacientes e colegas.

O fogão a gás que envenena a cozinha

O primeiro alerta vem de um estudo publicado na revista Environmental Health Perspectives (Seltenrich, 2024), que escancara o que acontece em nossas cozinhas. Em poucos minutos de uso, um fogão a gás eleva os níveis de dióxido de nitrogênio (NO₂) muito acima dos limites regulatórios de ar externo — e ainda libera monóxido de carbono, metano, formaldeído e benzeno, este último um carcinógeno humano que pode ultrapassar os padrões da OMS e da EPA. A pesquisa estima que 12,7% dos casos de asma infantil nos Estados Unidos são atribuíveis ao fogão a gás. Em apartamentos pequenos, sem coifa exaustora e com poucas janelas, o cenário de "pior caso" dos laboratórios é quase a realidade do dia a dia. A mensagem é clara: o gás que aquece nossa comida também está, silenciosamente, comprometendo nossos pulmões e os de nossas crianças.

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O hospital que adoece quem cuida

O segundo alerta é ainda mais perturbador para quem trabalha na saúde. Uma revisão sistemática recente (Loureiro et al., 2025, BMC Public Health) analisou 38 estudos sobre a qualidade do ar interno em unidades de saúde e confirmou que os hospitais são o ambiente mais estudado — e mais preocupante. Os parâmetros mais avaliados foram CO₂, material particulado (PM₂,₅ e PM₁₀), compostos orgânicos voláteis, formaldeído e NO₂, muitos deles vindos dos próprios procedimentos médicos, dos produtos de desinfecção e limpeza, dos anestésicos e da alta densidade de ocupação. Os profissionais de saúde — médicos, enfermeiros, técnicos de laboratório — relatam sintomas clássicos da Síndrome do Edifício Doente: irritação nos olhos e nariz, dores de cabeça, fadiga, dificuldade de concentração e problemas respiratórios. Ou seja: quem dedica a vida a curar está, ironicamente, respirando um ar que adoece. O hospital, templo da cura, transforma-se em fonte de agressão ocupacional.

O CO₂ que apaga nosso cérebro

O terceiro alerta mostra que o problema não é apenas químico, mas cognitivo. O estudo de Satish et al. (2012, Environmental Health Perspectives) demonstrou, em condições controladas, que o dióxido de carbono (CO₂) — que se acumula em ambientes fechados e lotados — tem efeito direto sobre a nossa capacidade de tomar decisões. A apenas 1.000 ppm, já houve queda moderada e significativa em seis de nove métricas de desempenho. A 2.500 ppm, a queda foi drástica em sete métricas, com alguns indicadores despencando de 44% a 94% — e o desempenho caindo para níveis classificados como marginais ou disfuncionais. Isso é devastador quando pensamos em quem decide vidas: um médico em uma sala de emergência lotada, um cirurgião em um centro cirúrgico, um gestor hospitalar. O CO₂ não apenas nos cansa — ele apaga nosso cérebro no momento exato em que mais precisamos dele.

O ambiente que destrói o coração

O quarto alerta conecta tudo isso ao órgão que mais mata no mundo. A declaração conjunta de 2026 da Sociedade Europeia de Cardiologia, Colégio Americano de Cardiologia, Associação Americana do Coração e Federação Mundial do Coração (Münzel et al., JACC) revela que os fatores de risco ambientais — poluição do ar, ruído, luz artificial, poluição química e mudanças climáticas — já respondem por cerca de 20 milhões de mortes anuais por doenças cardiovasculares, superando muitos fatores de risco tradicionais. A poluição sozinha é responsável por 9 a 12,6 milhões de mortes por ano. Esses estressores agem por vias compartilhadas — estresse oxidativo, inflamação, desequilíbrio autonômico e disfunção endotelial — e se amplificam mutuamente. Para quem trabalha em hospitais, a mensagem é dupla: o ambiente interno poluído não só adoece o coração do trabalhador, como o próprio setor de saúde, ao emitir mais de 4% dos gases de efeito estufa globais, contribui para o problema que deveria combater.

O Pacto Rio-grandense: a resposta que precisamos — e que precisa de você

Diante desse quadro, a inação é inaceitável. É aqui que entra o Pacto Rio-grandense pela Descarbonização da Saúde, um movimento institucional que transforma o alarme em ação concreta. O Pacto propõe a criação de uma tabela de produtos, equipamentos e fontes emissoras, com foco prioritário em escolas, creches, postos de saúde, ambientes hospitalares, refeitórios, restaurantes e órgãos públicos. Ele defende a eletrificação eficiente, a inserção de energias renováveis, a adoção de metodologia padronizada de medição e monitoramento, o estabelecimento de limites para áreas laborais e a publicação anual de um relatório de sustentabilidade com metas e resultados. A força desse movimento está na união das entidades signatárias: Dr. Luiz Carlos Bodanese (Cardiologista), Adm. Alexandre Tavares (PhD em Transição Energética e Gestão da Informação) | Diretor de PD&I do Instituto Safeweb / BioHub Tecnopuc, Dr. Jefferson Piva (Pediatra), Dr. Airton Stein (Epidemiologista), Dra. Valerie Noronha Menezes Kreutz e Dra. Maria Dolores Bressan (SIMERS), Dr. Cristiano Perin (Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do RS), Dr. Marcelo Porto (Sociedade de Pediatria do RS), Dr. Fabio Dantas Filho (Sociedade Gaúcha de Medicina do Trabalho), a Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS) e o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (CREMERS). Juntas, essas instituições enviam um recado inequívoco: quem trata não pode mais ser destratado. O ar que respiramos dentro de nossas casas, empresas e hospitais é uma questão de saúde pública, de dignidade ocupacional e de sobrevivência. O II Fórum Nacional de Educação Energética é o palco para essa virada. A pergunta que fica é: de que lado você estará quando a sociedade finalmente abrir os olhos para o que está respirando?

FONTE/CRÉDITOS: Marcos Medeiros / Jornalista — MTB 14.106 / Assessoria Safeweb / Rede Regional de Notícias

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Jornalista e assessor de comunicação, com atuação em produção de conteúdo informativo, institucional e sindical. Desenvolve reportagens e projetos estratégicos com foco em credibilidade, transparência e responsabilidade social.

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