A morte de Jorginho, atacado por uma onça no Pantanal, é um episódio que atravessa o Brasil com tristeza — ou pelo menos, assim deveria ser. Em meio ao luto da família, ao vazio deixado por um homem simples, trabalhador, amigo de tantos, assistimos a uma movimentação nas redes sociais e na imprensa que nos faz refletir: a comoção foi muito maior pela onça do que pelo ser humano.
Não se trata aqui de desprezar o valor da vida animal ou a necessidade urgente de proteger nossos biomas e espécies ameaçadas. Pelo contrário: cuidar da natureza é também cuidar de nós mesmos. Mas o que causa espanto — e dor — é perceber como, muitas vezes, nos afastamos da nossa própria humanidade. O zelo pelas causas ambientais, quando desmedido e desprovido de sensibilidade, pode transformar vítimas em vilões, e homens em números frios nas estatísticas.
Jorginho era mais do que uma manchete. Era uma vida. E a vida humana, com toda sua complexidade, seus erros e suas belezas, ainda deve ocupar um espaço sagrado em nossos corações e consciências. A defesa da natureza precisa caminhar junto com a defesa da dignidade humana, nunca em oposição. Não somos meros intrusos no mundo natural; somos parte dele. E o respeito que buscamos dar às florestas, aos rios e aos animais deve ser o mesmo respeito que oferecemos uns aos outros.
Que o triste episódio de Jorginho sirva não apenas para repensarmos as relações entre homens e animais, mas para reconectarmos com a essência do que nos torna verdadeiramente humanos: a capacidade de sentir compaixão. Por todas as formas de vida — inclusive, e principalmente, pela nossa.

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