O câncer de cabeça e pescoço continua sendo uma doença silenciosa e, muitas vezes, descoberta apenas em estágios avançados. Sintomas aparentemente comuns, como rouquidão persistente, dor de garganta, aftas que não cicatrizam e caroços no pescoço, costumam ser ignorados ou confundidos com problemas de menor gravidade, retardando o início do tratamento.
No próximo dia 27 de julho, quando é celebrado o Dia Mundial de Conscientização sobre o Câncer de Cabeça e Pescoço, a campanha Julho Verde reforça um alerta importante: reconhecer os sinais precoces da doença pode salvar vidas.
Os números reforçam a necessidade de atenção. Um estudo publicado em 2025 na revista científica The Lancet Regional Health-Americas, conduzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (INCA), analisou 145.365 casos registrados no Brasil entre 2000 e 2017 e revelou que 78,2% dos pacientes receberam o diagnóstico quando o câncer já estava em estágio avançado. A pesquisa também apontou que pessoas com menor escolaridade e pacientes mais jovens apresentam maior probabilidade de diagnóstico tardio.
Para o otorrinolaringologista e cirurgião de cabeça e pescoço Dr. André Alencar Araripe Nunes (CRM-CE 6553), presidente da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), a principal dificuldade é justamente o caráter discreto dos primeiros sintomas.
"Muitas pessoas acreditam que uma rouquidão prolongada, uma ferida na boca que não cicatriza ou uma dor de garganta persistente são problemas passageiros. Quando esses sintomas permanecem por mais de duas semanas, é indispensável procurar avaliação médica. O diagnóstico precoce aumenta significativamente as chances de cura e possibilita tratamentos menos agressivos", destaca o especialista.
Fique atento aos principais sinais
Entre os sintomas que merecem investigação médica estão:
* Rouquidão por mais de 15 dias; • Feridas na boca ou na língua que não cicatrizam; • Dor de garganta persistente; • Dor ou dificuldade para engolir; • Caroço no pescoço; • Sangramentos na boca ou no nariz sem causa aparente; • Mau hálito persistente; • Alterações na voz; • Dor de ouvido sem infecção identificada.
Fatores de risco podem ser evitados
Segundo Dr. André Nunes, a maior parte dos casos está relacionada a hábitos e fatores que podem ser prevenidos. Os principais são o tabagismo, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, a infecção pelo HPV especialmente nos tumores de orofaringe, a exposição excessiva ao sol (no caso do câncer de lábio), além da má higiene bucal e de uma alimentação pobre em frutas e verduras.
"O cigarro e o álcool, quando associados, multiplicam o risco de desenvolvimento da doença, tornando a prevenção ainda mais importante", enfatiza.
Diagnóstico precoce faz a diferença
O tratamento varia conforme a localização e o estágio do tumor, podendo incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia ou a combinação dessas terapias.
Embora os avanços da medicina tenham proporcionado tratamentos cada vez mais eficazes e menos invasivos, o presidente da ABORL-CCF ressalta que nenhuma inovação supera os benefícios de um diagnóstico realizado nas fases iniciais da doença.
Prevenção é o melhor caminho
Especialistas reforçam que algumas medidas simples ajudam a reduzir o risco de desenvolver o câncer de cabeça e pescoço:
* Não fumar; • Evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas; • Vacinar crianças e adolescentes contra o HPV, conforme o calendário do SUS; • Utilizar preservativo nas relações sexuais; • Usar protetor labial com filtro solar; • Manter boa higiene bucal; • Realizar consultas médicas e odontológicas regularmente.
Sobre a ABORL-CCF
A Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) é uma das mais tradicionais entidades médicas do país. A instituição atua na formação e atualização dos especialistas, incentivo à pesquisa científica e valorização da especialidade, promovendo avanços na saúde auditiva, respiratória, vocal e no tratamento das doenças da cabeça e do pescoço, sempre com foco na qualidade da assistência à população brasileira.
Comentários: