Em meio aos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pousada Garoa, instaurada na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, surge uma pergunta incômoda, porém inevitável: o que pesa mais em uma tragédia como essa — a dor das vítimas ou os embates entre direita e esquerda, situação e oposição?
Desde o início das investigações sobre o incêndio que matou 11 pessoas em situação de vulnerabilidade social em abril de 2024, a CPI se transformou em palco de discursos acalorados, troca de acusações e justificativas políticas. De um lado, vereadores cobrando responsabilidades do poder público. Do outro, parlamentares defendendo a gestão municipal e apontando para supostas distorções na narrativa da tragédia. Entre eles, vítimas, sobreviventes e uma sociedade perplexa, muitas vezes usada como argumento, mas raramente ouvida com profundidade.
A comissão, composta por 12 vereadores de diferentes espectros ideológicos, tem a nobre missão de investigar. Mas também carrega o fardo da desconfiança pública sobre sua real capacidade de se distanciar das disputas partidárias para cumprir, de fato, seu papel fiscalizador. Afinal, o que move os parlamentares: a busca pela verdade ou o capital político que uma CPI pode render?
Enquanto as oitivas se sucedem e os documentos são analisados, há um silêncio ensurdecedor que paira sobre o plenário: o sentimento das vítimas. Onde estão as vozes de quem perdeu familiares, amigos, sua última chance de abrigo e dignidade? O que essa tragédia revela sobre a forma como o Estado — e por extensão, seus representantes eleitos — encara a população em situação de rua?
O incêndio na Pousada Garoa não foi apenas uma falha técnica. Foi um sintoma. Um reflexo da negligência crônica, da invisibilidade imposta aos pobres, da burocracia que mata. E mais do que identificar responsáveis imediatos, a CPI deveria se debruçar sobre essa doença mais profunda que afeta a estrutura social da cidade.
Se a política serve apenas para polarizar, para inflamar discursos ou proteger aliados, ela falha. A dor não tem partido. A justiça, tampouco deveria. A verdadeira responsabilidade dos vereadores, neste momento, é escutar com empatia, investigar com coragem e legislar com compromisso ético.
O povo quer saber quem deixou essas pessoas morrerem. Mas quer, sobretudo, que isso nunca mais se repita. E essa resposta não virá das disputas ideológicas. Virá da verdade — e da ação concreta.

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