Em um cenário de aumento dos casos de feminicídio no Rio Grande do Sul, jovens de diferentes regiões do Estado estão sendo mobilizados para discutir prevenção da violência contra a mulher, equidade de gênero, cultura de paz e protagonismo juvenil. A iniciativa integra o Ciclo de Palestras “Diálogos que Protegem — Vozes pela Vida: Juventude, Respeito e Cultura da Paz”, promovido pela Demà Aprendiz, tecnologia social da Renapsi, em 30 cidades gaúchas.
O projeto envolve participantes da segunda edição do Programa Partiu Futuro Reconstrução e busca fortalecer a cidadania por meio de reflexões sobre os direitos das mulheres e o enfrentamento das diversas formas de violência. As atividades são construídas a partir das realidades de cada território e abordam temas como saúde mental, responsabilidade social, respeito, prevenção e construção de redes de proteção.
A ação ocorre em um momento de alerta. O Rio Grande do Sul registrou 42 feminicídios no primeiro semestre de 2026, número 16% maior do que o contabilizado no mesmo período do ano anterior. O total já representa mais da metade dos 80 casos registrados em todo o ano passado, conforme dados da Secretaria Estadual da Segurança Pública. No primeiro trimestre deste ano, o Estado somou 24 feminicídios, ficando atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Bahia, segundo levantamento do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Nesta quarta-feira, 1º de julho, cerca de 50 aprendizes de Porto Alegre e da Região Metropolitana participaram de uma roda de conversa no Tecnopuc com a extensionista do Programa Clínica Feminista Antirracista Interseccional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Lara Werner. Durante o encontro, os jovens refletiram sobre como identificar situações de violência, reconhecer sinais de relações abusivas, romper ciclos de naturalização de comportamentos violentos e atuar como agentes de transformação em suas comunidades.
Para Lara, o diálogo com adolescentes e jovens é essencial para disputar consciências e fortalecer uma cultura de respeito.
“Quando começamos a conversar com os adolescentes, percebemos que muitos têm uma história para contar de alguém da família ou de uma pessoa próxima que sofreu ou sofre algum tipo de violência. Estamos vivendo uma realidade grave de crimes contra as mulheres, e precisamos disputar a consciência desses jovens para construir uma sociedade baseada no respeito e na igualdade, sem naturalizar essas situações”, enfatiza.
Segundo a extensionista, levar esse debate à juventude amplia a compreensão sobre os impactos sociais da violência contra a mulher.
“É fundamental trazer esse tema para os jovens, mostrando que a violência contra a mulher impacta toda a população. Precisamos falar também sobre equidade de gênero, sobre a importância das mulheres e sobre como identificar sinais de relações abusivas”, afirma.
Lara também destaca que a informação pode ajudar na criação de redes de proteção nos territórios.
“A construção de ambientes protegidos passa pelo diálogo. Os jovens precisam saber que existem espaços seguros e adultos responsáveis para acolher e orientar. Quando têm informação, eles também se tornam agentes importantes no território, capazes de identificar situações de violência e encaminhar essas demandas”, complementa.
A escuta e a participação dos jovens foram pontos centrais da atividade. Para Kauê Viana de Souza, 18 anos, de Viamão, discutir o tema é uma forma de ampliar a empatia e fortalecer a solidariedade entre as pessoas.
“É muito importante conversarmos a respeito e termos empatia nesse momento, porque se eu tenho uma história triste e outra pessoa também, eu não quero que aconteça a mesma coisa que aconteceu comigo ou com ela, e temos que demonstrar que estamos prontos a ajudar quem necessita”, afirma.
Lavínia Fagundes Rodrigues, 21 anos, também de Viamão, ressalta que o diálogo ajuda a enfrentar o medo e pode incentivar vítimas ou testemunhas a buscar apoio.
“É um assunto relevante a ser debatido para enfrentarmos o medo da violência doméstica e mostrar que as mulheres, ou quem presenciar uma situação desse tipo, não devem ter receio de denunciar o agressor porque a vítima receberá proteção das autoridades. Podemos ajudar, seja por meio de uma conversa com essa pessoa, sendo ela próxima ou não”, salienta.
Para a coordenadora Psicossocial da Demà, Ester Melo, os encontros representam espaços de formação, conscientização e fortalecimento do protagonismo juvenil.
“O projeto surgiu com o propósito de levar informação e estimular mudanças de comportamento. Combater a violência contra a mulher começa por reconhecer sinais, respeitar limites, escutar sem julgar e saber onde buscar ajuda. Assim, o Vozes pela Vida reafirma seu compromisso com a formação integral da juventude, promovendo espaços de diálogo, reflexão, aprendizado e responsabilidade social”, complementa.
As palestras contam com a participação de representantes de órgãos especializados, como Centros de Referência de Atendimento à Mulher, Centros de Referência da Mulher, Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, Patrulha Maria da Penha, Procuradoria da Mulher e Promotoria Especializada de Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, entre outros.
As atividades realizadas nos municípios culminarão em um Fórum previsto para o fim de julho, em Porto Alegre. O encontro deve reunir mais de mil participantes para ampliar a reflexão sobre juventude, direitos, prevenção da violência e construção de uma sociedade mais segura e igualitária.
A programação também conta com uma comissão formada por dez jovens de diferentes municípios gaúchos. O grupo realiza reuniões semanais para debater propostas e contribuir com a construção de uma agenda que represente o olhar da juventude sobre o enfrentamento da violência contra a mulher.
SOBRE O PROGRAMA PARTIU FUTURO RECONSTRUÇÃO
Ao todo, 2.785 jovens de 75 municípios gaúchos participam da segunda edição do Partiu Futuro Reconstrução. Desse total, 1.840 são atendidos pela Demà Aprendiz, tecnologia social da Renapsi, em 31 cidades. O programa é realizado pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social.
A Demà Aprendiz é responsável pela coordenação da capacitação teórica e pelo acompanhamento das atividades realizadas em órgãos públicos, unindo aprendizagem profissional e desenvolvimento integral dos participantes para a qualificação no mundo do trabalho. Os jovens conciliam a formação teórica, realizada uma vez por semana, com a atuação em órgãos estaduais e municipais, onde desempenham atividades quatro dias por semana.
A iniciativa é voltada a pessoas de 14 a 22 anos, egressas ou matriculadas na rede pública de ensino, inscritas no Cadastro Único e que foram impactadas pelas enchentes de maio de 2024 ou residem em municípios integrados ao Programa RS Seguro. O contrato tem duração de um ano e prevê carga horária total de 1.040 horas.
Os participantes recebem bolsa-auxílio de R$ 894,52 para uma jornada de 20 horas semanais, vale-alimentação de R$ 550 e vale-transporte, quando necessário. Também contam com carteira assinada e acesso aos direitos garantidos por lei, como FGTS, INSS, férias e 13º salário.
Com o ciclo de palestras, a Demà Aprendiz reforça a dimensão social e formativa do programa, aproximando juventude, políticas públicas e redes de proteção em torno de um tema urgente para o Rio Grande do Sul: a defesa da vida das mulheres e a construção de uma cultura de respeito desde as novas gerações.

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