Maio de 2025 marca o primeiro aniversário da maior tragédia climática da história de Eldorado do Sul. A enchente que destruiu quase toda a zona urbana do município deixou cicatrizes que não se apagaram — nem física, nem emocionalmente. Um ano depois, a cidade continua fragmentada: parte dos moradores jamais voltou; outros, mesmo vivendo entre ruínas, se recusam a abandonar suas raízes.
Dos 42 mil habitantes estimados antes do desastre, mais de 9 mil migraram permanentemente para outras cidades. Muitos ainda vivem em abrigos temporários ou em casas improvisadas com ajuda de familiares. Eldorado do Sul, embora ainda de pé, parece suspensa no tempo.
Uma reconstrução que caminha devagar
Segundo dados da Defesa Civil, apenas 38% das moradias afetadas foram reformadas ou reconstruídas até abril de 2025. As obras de infraestrutura pública avançam lentamente. Escolas e postos de saúde ainda operam em estruturas provisórias, e a nova prefeitura enfrenta dificuldades para destravar recursos federais e estaduais.
“O que conseguimos até agora veio da força da comunidade”, diz João Pedro Maciel, coordenador da Defesa Civil local. “Mas falta apoio contínuo. Há promessas, mas pouca execução.”
O retorno que não veio
A ausência de políticas habitacionais eficazes e o medo de novas enchentes fizeram com que muitas famílias desistissem de voltar. Marisa Lima, que antes morava no bairro Cidade Verde, agora vive com a filha em Guaíba. “Voltar pra quê? Ainda tem casa cheia de lama e ruas com entulho. Aquilo não é mais a cidade onde cresci”, lamenta.
Segundo o último censo local, o bairro Cidade Verde perdeu 70% de seus moradores. Já a Vila da Paz tornou-se símbolo do abandono: ruas com imóveis vazios, vegetação tomando casas e silêncio — um cenário que lembra zona de guerra.
Resistência silenciosa
Apesar do cenário adverso, alguns insistem em recomeçar. O casal Terezinha e Sérgio Moura segue à frente do mercado Fênix, que se tornou um ponto de apoio comunitário. “A gente reabre todo dia, mesmo que vendendo pouco. Alguém precisa ficar”, diz Terezinha.
Mas a maioria dos pequenos comerciantes não resistiu. Estima-se que 60% dos estabelecimentos fechados em 2024 ainda não retornaram às atividades. O desemprego segue alto, e muitos jovens optaram por buscar trabalho em Porto Alegre.
Feridas que o tempo não curou
O trauma coletivo permanece. Casos de depressão, ansiedade e transtorno pós-traumático aumentaram significativamente, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde. A população enfrenta não apenas a perda material, mas o desafio psicológico de viver num espaço associado à dor.
Maria Clair Montin, que ainda mora num anexo improvisado da antiga casa destruída, resume o sentimento de muitos: “A gente acorda e dorme com medo. Toda chuva é um gatilho.”
Futuro incerto
A gestão municipal prometeu, para o segundo semestre de 2025, o início da realocação de comunidades ribeirinhas e a criação de um novo plano diretor da cidade, com foco em prevenção e urbanização resiliente. Até lá, a cidade segue suspensa entre passado e incerteza.

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