Brasília — Em depoimento bombástico ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira (9), o tenente-coronel Mauro Cid confirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro leu e editou a chamada “minuta do golpe” — documento que detalhava medidas extremas para anular o resultado das eleições presidenciais de 2022.
Segundo Cid, Bolsonaro pediu alterações no texto, removendo o trecho que previa a prisão de várias autoridades, mas manteve o dispositivo para prender o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes.
“O documento consistia em duas partes”, explicou Cid. “A primeira parte tinha considerandos sobre interferências do STF e TSE no governo e nas eleições. A segunda parte apresentava fundamentação jurídica para decretar estado de defesa, estado de sítio, prender autoridades, criar um conselho eleitoral e um comitê de crise para refazer as eleições.”
De acordo com o militar, Bolsonaro leu a minuta durante reuniões no Palácio da Alvorada, com participação do assessor Filipe Martins. “Ele enxugou o documento”, disse Cid, “retirando as prisões de autoridades, ficando só o senhor Alexandre de Moraes como alvo.”
O depoimento também revelou que havia intensa pressão militar sobre Bolsonaro para que adotasse alguma medida para se manter no poder. Segundo Cid, generais da ativa chegaram a sugerir a troca de comandantes das Forças Armadas caso não apoiassem a trama golpista.
A minuta em questão foi apreendida em janeiro de 2023, na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, dois dias após os ataques golpistas de 8 de janeiro. O texto se tornou peça-chave nas investigações sobre a tentativa de golpe de Estado.
Implicações
O depoimento de Mauro Cid fortalece a tese da Polícia Federal de que Bolsonaro teve participação ativa na tentativa de articular um golpe, com o apoio de aliados civis e militares. Parlamentares da oposição reagiram imediatamente. O deputado Elvino Bohn Gass (PT-RS) classificou o depoimento como “um divisor de águas” e pediu responsabilização. Já o senador Humberto Costa (PT-PE) disse que as revelações “escancaram a gravidade do ataque à democracia.”
Enquanto isso, Bolsonaro nega ter planejado um golpe, classificando o depoimento como “uma narrativa” e “conversa de bar”.
O STF deve ouvir outros réus ao longo da semana, incluindo ex-ministros e generais envolvidos no caso.
Resumo das propostas da minuta:
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Decretação de estado de defesa e estado de sítio
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Prisão de autoridades (após edição, restrita a Alexandre de Moraes)
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Criação de um conselho eleitoral paralelo
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Instalação de comitê de crise para refazer as eleições
A investigação segue em andamento, podendo impactar diretamente o futuro político de Jair Bolsonaro e aliados.

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