O consumo de bebidas alcoólicas, mesmo em quantidades consideradas moderadas, pode elevar o risco de desenvolvimento de alguns tipos de câncer. Evidências científicas reunidas por organizações internacionais de saúde reforçam que a relação não está limitada ao uso excessivo ou prolongado da substância.
As bebidas alcoólicas são classificadas pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, vinculada à Organização Mundial da Saúde, como carcinogênicas para seres humanos. A classificação no Grupo 1 indica que existem evidências científicas suficientes sobre a capacidade do álcool de causar câncer.
Isso não significa, porém, que todos os agentes incluídos nessa categoria, como tabaco e amianto, apresentem o mesmo grau de risco. O sistema da agência avalia a solidez das evidências sobre a capacidade de provocar câncer, e não compara a intensidade do perigo oferecido por cada substância.
O álcool está relacionado ao aumento do risco de pelo menos sete tipos de câncer: boca, faringe, laringe, esôfago, fígado, mama e cólon e reto.
Quanto maior a quantidade e a frequência do consumo, maior tende a ser o risco. No entanto, estudos também identificam elevação da probabilidade de alguns tumores entre pessoas que consomem pequenas quantidades, inclusive menos de um drinque por dia.
Como o álcool pode favorecer o câncer
De acordo com o chefe do Serviço de Oncologia do Hospital Moinhos de Vento, Sérgio Roithmann, o álcool pode prejudicar o organismo por diferentes mecanismos.
“Quando ingerido, é metabolizado em substâncias — como o acetaldeído, que pode danificar o DNA das células — e promove processos como estresse oxidativo, inflamação crônica e alterações nos níveis hormonais. Esses mecanismos favorecem mutações celulares que podem desencadear a formação de tumores”, explica.
O acetaldeído é produzido quando o organismo metaboliza o etanol presente nas bebidas. A substância pode causar danos ao material genético e dificultar a reparação das células.
O consumo de álcool também pode aumentar a produção de moléculas reativas que provocam estresse oxidativo, interferir na absorção de nutrientes e alterar níveis hormonais, como o estrogênio. Esse último mecanismo está associado especialmente ao risco de câncer de mama.
Além disso, a combinação entre álcool e tabagismo pode potencializar os danos, sobretudo em tumores da boca, da garganta, da laringe e do esôfago.
Pequenas quantidades também exigem atenção
Durante anos, o chamado consumo moderado foi tratado socialmente como um comportamento praticamente isento de consequências. As evidências mais recentes, entretanto, mostram que, quando o assunto é câncer, não é possível apontar uma quantidade completamente livre de risco.
“Estudos de organizações internacionais recomendam que, para minimizar riscos, aqueles que optam por beber limitem sua ingestão, e que qualquer redução no consumo pode trazer benefícios à saúde”, afirma Roithmann.
Pesquisas indicam que um drinque diário já pode estar associado a um aumento do risco de alguns tumores, especialmente o câncer de mama, em comparação com a abstinência.
Isso não significa que uma pessoa que consome álcool necessariamente desenvolverá câncer. A doença é multifatorial e pode envolver predisposição genética, idade, hábitos de vida, exposições ambientais e outras condições de saúde.
A evidência indica, no entanto, que o álcool é um fator de risco modificável. Dessa forma, diminuir a frequência e a quantidade consumida, ou interromper o consumo, reduz a exposição do organismo a uma substância carcinogênica.
Consumo apresenta mudanças no Brasil
No Brasil, levantamentos recentes indicam transformações no comportamento da população em relação às bebidas alcoólicas.
Uma pesquisa domiciliar realizada pela Ipsos, a pedido do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, apontou que 64% dos entrevistados foram classificados como abstêmios em 2025. Em 2023, essa proporção era de 55%.
O estudo ouviu 1.981 brasileiros e identificou um aumento de nove pontos percentuais na abstenção em dois anos. A mudança foi mais expressiva entre os jovens de 18 a 24 anos: o percentual dos que não bebiam passou de 46% para 64%.
O consumo classificado como abusivo recuou de 17% para 15% no mesmo período. Já a parcela de consumidores moderados passou de 27% para 21%.
A pesquisa também mostrou uma redução na frequência. O grupo que declarava beber uma vez por semana ou a cada 15 dias caiu seis pontos percentuais entre 2023 e 2025.
Geração Z bebe menos
Outro levantamento, realizado pela plataforma de pesquisas MindMiners com 3 mil pessoas em todo o país, também identificou menor adesão às bebidas alcoólicas entre integrantes da geração Z.
Segundo o estudo, 45% dos jovens pesquisados afirmaram consumir álcool, percentual inferior aos encontrados entre os millennials, a geração X e os chamados baby boomers.
Entre as razões apresentadas pelos jovens que não bebem estão a falta de interesse, a rejeição ao sabor e aos efeitos físicos e emocionais da substância, além da busca por qualidade de vida.
Os resultados sugerem uma mudança cultural na relação das novas gerações com o álcool. O consumo deixa gradualmente de ser percebido como elemento indispensável de socialização, diversão ou passagem para a vida adulta.
Ao mesmo tempo, cresce o interesse por bebidas sem álcool, produtos com menor teor alcoólico e opções associadas ao bem-estar e à manutenção de hábitos mais saudáveis.
Informação ajuda na prevenção
Para Roithmann, a redução identificada nos levantamentos brasileiros representa um sinal favorável, mas precisa ser acompanhada pela ampliação do acesso a informações claras sobre os efeitos do álcool.
“Esses dados representam esperança de que a população esteja caminhando para uma maior conscientização e, consequentemente, para uma rotina mais saudável”, afirma.
“Uma vez que se tem a diminuição do consumo de álcool, há também a redução de um fator de risco importante para o desenvolvimento do câncer e de outras doenças crônicas, o que impacta positivamente tanto a saúde individual quanto os sistemas de saúde como um todo”, acrescenta o oncologista.
A prevenção não depende apenas de decisões individuais. Especialistas defendem que o tema também seja incorporado às políticas públicas, às ações educativas e às orientações prestadas nos serviços de saúde.
Dar visibilidade à relação entre álcool e câncer permite que a população tome decisões mais conscientes. Embora o risco aumente conforme a quantidade consumida, a mensagem central das evidências científicas é direta: beber menos reduz a exposição e pode trazer benefícios para a saúde.

Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se