Um ano depois das enchentes que devastaram dezenas de cidades gaúchas entre abril e maio de 2024, 25 famílias seguem vivendo a angústia da incerteza. Seus entes queridos estão entre os desaparecidos de uma tragédia que deixou 184 mortos oficialmente confirmados, segundo a Defesa Civil do Rio Grande do Sul. As águas baixaram, mas a dor de quem não teve sequer um corpo para sepultar continua à flor da pele.
No bairro Navegantes, em Porto Alegre, Cláudia Fernandes, de 59 anos, ainda procura por notícias do filho, Leandro, desaparecido desde 3 de maio do ano passado. “Já não tenho mais esperanças de encontrá-lo vivo, mas preciso de uma resposta. Um corpo. Um sinal. Algo que nos permita fechar esse luto”, diz, emocionada.
A enchente histórica, provocada por um ciclo anômalo de chuvas intensas combinado com o transbordamento dos rios Jacuí, Caí, Taquari e Sinos, foi considerada a maior catástrofe climática do estado. Cidades como Muçum, Roca Sales, Encantado e Lajeado foram praticamente submersas. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), algumas regiões registraram, em apenas quatro dias, volumes de chuva superiores a 300 mm — o equivalente a todo o mês de abril.
Desde então, o governo estadual organizou uma força-tarefa de busca e resgate, com apoio das Forças Armadas e da Defesa Civil Nacional. Durante meses, helicópteros sobrevoaram áreas alagadas, cães farejadores atuaram em escombros, e voluntários rastrearam margens de rios. Apesar dos esforços, 25 pessoas permanecem desaparecidas.
O Corpo de Bombeiros Militar do RS afirma que as buscas continuam, mas de forma pontual e orientada por novas evidências. “Sempre que recebemos uma nova pista ou relato confiável, deslocamos equipes ao local. Não é um trabalho encerrado, mas reduzido, já que boa parte das áreas afetadas foi completamente varrida nos primeiros meses”, afirma o coronel Marcos Araújo, comandante da operação.
Para as famílias, no entanto, o tempo não diminuiu a urgência. Muitas ainda mantêm redes sociais ativas, publicando fotos e relatos na esperança de alguma informação. Organizações civis, como a Associação de Familiares de Desaparecidos nas Enchentes (AFDE), formada após a tragédia, seguem cobrando maior transparência nas investigações e suporte psicológico permanente.
“Nos prometeram acompanhamento, mas o atendimento psicológico foi encerrado em muitos municípios ainda em 2024. Ficamos com os traumas e com a ausência”, denuncia Carla Bittencourt, presidente da AFDE, que perdeu o pai em Roca Sales.
Especialistas em clima e gestão de riscos apontam que o evento extremo do ano passado é reflexo do avanço das mudanças climáticas e da ausência de um plano efetivo de contenção e adaptação urbana. “Não foi um desastre apenas natural. Foi também social e político, fruto de décadas de negligência com o planejamento urbano e os sistemas de alerta”, afirma o geógrafo e pesquisador da UFRGS, Rafael Pinheiro.
Enquanto o Estado tenta se reestruturar — com investimentos prometidos em barragens, drenagem e monitoramento climático —, os desaparecidos continuam como uma ferida aberta na memória do Rio Grande do Sul. “Precisamos lembrar que não há reconstrução completa sem respostas”, conclui Carla.
O governo estadual anunciou que incluirá, ainda em 2025, um programa específico para famílias de desaparecidos em tragédias, com foco em atendimento psicológico, assessoria jurídica e auxílio financeiro. Já os bombeiros, em parceria com universidades, estudam novas tecnologias de busca subaquática para reforçar futuras operações.

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