Um ano após as devastadoras enchentes que atingiram Porto Alegre em maio de 2024, o impacto ainda é sentido de forma intensa no mercado imobiliário da capital gaúcha. Os aluguéis residenciais registraram alta de 26% ao longo do último ano, segundo dados do Índice FipeZAP. O crescimento é mais que o dobro da média nacional, de 13,5%, e quase cinco vezes maior que a inflação acumulada no mesmo período.
O salto nos preços está diretamente ligado à redução da oferta causada pelos estragos das enchentes. Muitos imóveis em regiões baixas, como Praia de Belas e Cidade Baixa, foram danificados ou tornaram-se inabitáveis, provocando um movimento em massa de moradores em busca de segurança e infraestrutura em bairros mais elevados.
Zonas como Rio Branco, Partenon, Santana, Petrópolis, Passo da Areia e Bom Fim tornaram-se polos de procura imobiliária. Esses bairros, que escaparam dos alagamentos mais severos, tiveram valorização significativa. Segundo dados de imobiliárias locais, a procura por imóveis nessas regiões subiu mais de 60%, pressionando os preços para cima.
“É uma reação natural do mercado diante da escassez e da mudança de percepção sobre risco climático”, analisa João Matos, economista especializado no setor imobiliário. “A busca por áreas seguras se intensificou, mas a oferta não acompanhou, o que explica o reajuste tão expressivo nos aluguéis.”
A situação é agravada por um contexto de reconstrução lenta. A falta de mão de obra especializada, somada à escassez de materiais de construção e ao alto custo das reformas, tem dificultado o retorno de imóveis danificados ao mercado.
No setor comercial, embora tenha havido leve expansão da oferta, o movimento não foi suficiente para conter o aumento nos preços residenciais.
Apesar da escalada, outubro de 2024 registrou uma queda de 1,16% nos valores médios dos aluguéis — a primeira retração em meses, indicando uma possível reacomodação do mercado após o pico da crise.
O cenário reforça um novo paradigma para o mercado imobiliário de Porto Alegre: segurança contra desastres climáticos tornou-se critério essencial na escolha de moradia. E essa mudança tende a moldar as dinâmicas urbanas e os preços por um bom tempo.

Comentários: