Vivemos tempos estranhos, quase inomináveis. Tempos em que o afeto é simulado por bonecos de plástico, onde o amor é projetado em pets humanizados, vestidos com roupinhas e tratados como filhos, enquanto os próprios filhos — de carne e osso — crescem sem afeto, largados às telas ou à própria sorte. É como se estivéssemos tentando substituir o amor real por uma versão que não exige conflito, nem diálogo, nem renúncia. Um amor domesticado, que não responde, que não sofre e que não cobra.
As ruas estão cada vez mais silenciosas no afeto e ruidosas na violência. O som que ecoa é o do desrespeito, da intolerância, da indiferença. Não há mais o “bom dia” espontâneo, o “por favor” ensinado em casa, o “obrigado” que vinha do coração. A ética virou devaneio. O outro deixou de ser espelho e passou a ser obstáculo.
Enquanto alguns investem tempo e dinheiro em experiências afetivas com seres sem vida, outros sequer têm pão na mesa ou acesso à educação digna. A desigualdade social se agravou de tal forma que não se reconhece mais o que é viver com o mínimo necessário. As classes se tornaram ilhas, cada uma com sua lógica, sua bolha, seu medo e sua raiva do outro.
Há uma crise de humanidade. E ela não está apenas nas estatísticas ou nos noticiários sangrentos. Ela está na nossa forma de viver, de consumir, de amar. Entre laços artificiais e afetos esquecidos, a sociedade se distancia da própria humanidade. Nos escondemos em avatares, curtimos tragédias, fazemos piada da dor alheia. O mundo real está em desvantagem.
Não se trata de condenar quem ama seus animais ou quem busca consolo em um boneco reborn. Trata-se de refletir sobre por que temos colocado esses vínculos à frente dos laços humanos, por que temos medo do outro, por que a violência se tornou resposta para tudo. Onde foi parar o respeito? O que fizemos da solidariedade?
É urgente resgatar o sentido da vida coletiva. É preciso reaprender a ouvir, a ceder, a cuidar do outro. Sem isso, continuaremos a viver essa era de “algo nenhum”: sem amor, sem ética, sem rumo.
E sem humanidade, não haverá futuro.

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