Vaticano, abril de 2025 — A manhã de Páscoa no Vaticano teve um silêncio simbólico e poderoso. Pela primeira vez, a tradicional Benção Urbi et Orbi não foi proferida diretamente pelo Papa Francisco, mas sim transmitida por seu mestre de cerimônias, em razão do estado debilitado de saúde do pontífice. Ainda assim, cada palavra soou como se ele próprio estivesse ali, em carne, espírito e convicção, oferecendo ao mundo não apenas votos de renovação pascal, mas um apelo profundo e urgente por paz.
“Não é possível haver paz sem um verdadeiro desarmamento”, dizia uma das frases centrais da mensagem. Francisco condenou a corrida armamentista que se intensifica em várias regiões do mundo, chamando líderes políticos a não se renderem à lógica do medo, mas a canalizarem os recursos públicos para combater a fome, promover o desenvolvimento e cuidar dos mais necessitados. “Essas são as armas da paz”, afirmou. “Armas que constroem o futuro em vez de espalhar a morte”.
O Papa, conhecido por sua voz profética em defesa dos marginalizados, fez questão de listar um a um os povos que hoje padecem sob o peso da guerra, da perseguição e da indiferença. Do Oriente Médio à África, da Ucrânia aos Balcãs, de Myanmar ao Cáucaso, sua fala foi um manto de proximidade e solidariedade estendido a cristãos e não cristãos, num convite universal à reconciliação e ao cessar-fogo.
Francisco também reiterou que não há paz sem liberdade — liberdade religiosa, de pensamento, de expressão e de escuta. A paz, disse, exige o reconhecimento mútuo da dignidade do outro e o compromisso com o desenvolvimento integral da pessoa humana. “A solidariedade e o cuidado mútuo são o alicerce de uma sociedade pacífica”, pontuou a mensagem.
Num trecho especialmente simbólico, a mensagem pascal defendeu a libertação de prisioneiros de guerra e presos políticos, como um gesto concreto de reconciliação e como sinal de que a vida deve prevalecer sobre os cálculos estratégicos.
Nos momentos finais, a mensagem assumiu um tom pessoal e espiritual. “Não podemos estacionar nosso coração nas ilusões deste mundo nem fechá-lo na tristeza; temos de correr, cheios de alegria”, disse o Papa. Uma convocação à esperança, mesmo diante da dor — e talvez uma despedida serena de alguém que entregou sua vida ao serviço da paz e da fraternidade entre os povos.
A voz de Francisco pode ter sido lida por outro, mas foi ouvida com o peso da verdade por milhões. Uma mensagem de Páscoa que se transforma em testamento: um chamado urgente à humanidade para que se reconheça como uma só família, capaz de reconstruir pontes num tempo de muros e cinzas.
