Porto Alegre, cidade de canções, cultura e história, também guarda em suas esquinas memórias sombrias. Na região do Centro Histórico, entre a Rua da Praia (atual Rua dos Andradas) e a Avenida Mauá, existiu o temido Largo da Forca, hoje conhecido como Praça Brigadeiro Sampaio. Um espaço que já foi cemitério, palco de enforcamentos públicos e berço de muitas lendas urbanas que ecoam até os dias atuais.
Segundo o historiador Walter Spalding, o Largo da Forca ficava na atual Avenida Padre Tomé, em frente à Igreja das Dores, bem próximo ao que hoje conhecemos como o Museu do Trabalho e a Usina do Gasômetro. A área foi oficialmente batizada de Praça da Harmonia após o fim das execuções, em um gesto simbólico da Câmara Municipal de Porto Alegre, representando o desejo de paz e esquecimento dos horrores ali ocorridos.
O também historiador Sérgio da Costa Franco confirma que o antigo Largo da Forca corresponde exatamente ao espaço da atual Praça Brigadeiro Sampaio, que teve outros nomes ao longo da história: Ponta das Pedras, Largo da Forca, Praça do Arsenal, Praça da Harmonia, Praça Martins de Lima e Praça Três de Outubro.
🔍 Entre a História e o Sobrenatural
O local começou como um cemitério improvisado em 1752, destinado aos primeiros colonos açorianos. Isolado do povoado, ganhou fama de lugar assombrado, onde, segundo relatos, se ouviam lamentos e passos invisíveis entre as sombras das árvores.
Mas o terror ganharia forma física quando, em 1772, com a transferência da capital de Viamão para Porto Alegre, o Largo se tornou oficialmente o espaço para execuções públicas. Escravos, soldados e criminosos eram levados em cortejos fúnebres pelas ruas da cidade, escoltados por soldados e acompanhados por sacerdotes até o cadafalso montado sob os olhos atentos da população.
Os Enforcamentos Mais Marcantes
O primeiro condenado foi o africano Joaquim, da nação Mina, decapitado por ter assassinado a mãe de seu senhor. Sua cabeça ficou exposta ao público, em um macabro espetáculo de punição.
Outro episódio famoso foi a execução de Lucas, cuja corda rompeu no primeiro enforcamento — na tradição da época, isso era considerado sinal divino de inocência. Apesar dos apelos populares e religiosos, a sentença foi cumprida após a substituição da corda.
Em 1857, as três últimas execuções encerraram oficialmente o uso da pena de morte em Porto Alegre: Domingos Batista, Sargento Félix e Florentino foram enforcados no mesmo local. Pouco depois, com a pressão da sociedade e intervenções do próprio Dom Pedro II, a forca foi oficialmente extinta.
Da Tragédia ao Lazer
Com o fim das execuções, o espaço ganhou o nome de Praça da Harmonia. Nos anos seguintes, passou por urbanizações e se tornou ponto de encontros, lazer e até patinação, onde jovens da elite e do povo se reuniam para socializar — um contraste gritante com seu passado sombrio.
Apesar disso, a Praça também enfrentou períodos de abandono, foi usada como depósito de obras do Cais Mauá e só voltou a ter certo glamour nas primeiras décadas do século XX.
Lendas Urbanas e As Sombras que Persistem
Mesmo após séculos, há quem diga que nas madrugadas silenciosas é possível ouvir passos, correntes arrastando e lamentos vindos das árvores centenárias da praça. Moradores e trabalhadores da região evitam atravessar o local à noite, seja por medo das histórias ou respeito às almas que ali partiram.
O Largo da Forca permanece, na memória coletiva da cidade, como um espaço onde a história, a dor, a resistência e o sobrenatural se encontram — e onde as sombras do passado jamais se apagam completamente.
