Em uma ação conjunta que demonstra a crescente sofisticação do combate ao crime cibernético, a Operação Falso Patrono, coordenada pela Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos (DRCPE/DERCC) da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, desarticulou uma perigosa quadrilha especializada no "golpe do falso advogado". A ofensiva, que resultou em prisões e apreensões em São Paulo, revela a audácia de criminosos que utilizavam dados de advogados e escritórios gaúchos para aplicar estelionatos, principalmente contra vítimas no próprio Rio Grande do Sul.
A operação cumpriu quatro mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em solo paulista, resultando na prisão de dois homens, incluindo o apontado como chefe do esquema. A investigação aponta que, embora as bases de operação estivessem em São Paulo, o foco principal dos criminosos eram os cidadãos gaúchos.
Um dos achados mais estarrecedores da investigação foi a apreensão de um manual detalhado (cartilha) que ensinava o passo a passo do golpe. Esse material abrangia desde a abordagem inicial das vítimas até a falsificação de documentos e a simulação de atendimentos jurídicos, servindo como um verdadeiro curso para novos golpistas, facilitando a expansão do esquema por todo o país.
Como o "Golpe do Falso Advogado" Enganava as Vítimas
A mecânica do golpe revelava uma combinação de engenharia social e exploração de dados públicos:
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Monitoramento de Processos: Os criminosos monitoravam processos judiciais públicos, com especial atenção a precatórios, RPVs (Requisições de Pequeno Valor) e indenizações, onde havia expectativa de valores a serem liberados.
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Coleta de Dados: Nomes, CPFs, nomes de advogados e números de processo eram coletados em sistemas públicos dos tribunais, evidenciando uma falha de segurança na proteção de dados sensíveis.
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Abordagem Enganosa: As vítimas eram contatadas via WhatsApp ou telefone, com os golpistas se passando por advogados ou assessores legítimos.
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Exigência de Pagamentos Falsos: Sob a alegação de que um valor havia sido liberado judicialmente, os criminosos exigiam depósitos antecipados para supostas "custas processuais", "impostos" ou "taxas cartorárias". O pagamento era solicitado via PIX para contas de "laranjas", dificultando o rastreamento.
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Falsificação e Veracidade: Para dar credibilidade ao golpe, documentos falsificados com timbres do Poder Judiciário ou de escritórios de advocacia reais eram enviados às vítimas.
A polícia já identificou registros de pelo menos 1.500 vítimas somente no Rio Grande do Sul, com uma movimentação financeira que atingiu até R$ 1 milhão em uma única conta de suspeito. A investigação também apontou que o líder do esquema, além de produzir e distribuir a cartilha, mantinha relações com advogados criminais, buscando uma "blindagem jurídica" para o grupo. É importante ressaltar que nenhum dos presos possuía registro regular na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
A Operação Falso Patrono é um exemplo da importância da atuação articulada entre as forças policiais de diferentes estados para combater crimes complexos que transcendem fronteiras geográficas, protegendo a população contra esquemas que se valem da boa-fé e da expectativa de direito das vítimas.

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