A casa número 481 da Rua Vicente da Fontoura, no tradicional bairro Menino Deus, em Porto Alegre, não chama atenção apenas pela fachada marcada pelo tempo. Agora, é impossível ignorar os recados em letras garrafais fixados no muro: “Casa vazia. Já roubada” e “Favor, não depredar mais”. Os cartazes, alguns plastificados, refletem o desespero de Nara Vieira, proprietária do imóvel, diante da sequência de invasões e furtos que assolam o local desde 2021.
A residência, onde Nara viveu por 53 anos, foi completamente saqueada. De lá, criminosos levaram fiação elétrica, louças, metais e até um holofote preso a três metros de altura. O caso mais recente ocorreu em abril de 2025, menos de 24 horas após a dona investir R$ 1.690 na religação da energia: a fiação foi novamente arrancada.
"Será que vou ter de colocar alguém para dormir aqui e ficar de vigia? Não sei mais o que fazer", desabafa Nara, diante do cenário de abandono e constante vulnerabilidade.
Apesar das tentativas de conter as ações, como muro de 1,75 metro, grades, arame farpado, portões reforçados e os insistentes apelos colados nas portas, o imóvel segue alvo frequente de ataques. Segundo a moradora, foram ao menos quatro episódios confirmados de arrombamento desde o início dos crimes.
Dados do 1º Batalhão da Polícia Militar indicam que houve queda no número de furtos na região – de 43 casos entre janeiro e abril de 2024, para 16 no mesmo período de 2025. A sensação de insegurança, porém, permanece. Especialistas apontam que, além de medidas físicas como câmeras, sensores de movimento e iluminação adequada, é preciso repensar políticas públicas para a gestão de imóveis desocupados, sobretudo em áreas afetadas pelas enchentes de 2024, que agravaram a vulnerabilidade social, o número de moradores de rua e o consumo de drogas nos arredores.
Enquanto soluções efetivas não chegam, a casa de Nara continua gritando em silêncio através de seus muros pichados, tentando convencer quem passa a não levar o que já não existe mais.

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