Há pouco mais de um ano, o Rio Grande do Sul chorava. Chorava por vidas, por casas, por histórias arrastadas pelas águas. E agora, diante de novos dias de chuva intensa e instabilidade climática, o medo volta a se espalhar como umidade em parede antiga. A previsão do tempo não é apenas meteorológica — é também emocional. Cada gota que cai traz de volta lembranças que insistem em não secar.
Como está a cabeça do gaúcho? Como descansa a mãe que perdeu tudo e hoje tenta reconstruir com o pouco que lhe sobrou? Como dorme o pai que escuta os trovões e se pergunta se vai precisar, mais uma vez, salvar os filhos às pressas? Como ficam os velhinhos, os animais, os vizinhos que ainda vivem em abrigos ou em casas improvisadas, esperando uma ajuda que não chega, enquanto o silêncio das autoridades ecoa mais alto que qualquer alarme?
As águas voltam. Trazem o cheiro do barro, a lembrança dos botes, dos abraços de solidariedade e das promessas feitas em palanques. Trazem também o lamento de quem ainda aguarda a tal ajuda federal, que virou apenas manchete antiga, de ministérios criados no calor da crise e esquecidos na calmaria política.
O gaúcho é forte, dizem. E é mesmo. Mas até os mais fortes cansam de reviver a dor. Hoje, quando ouvimos a chuva lá fora, sentimos falta da antiga frase dos avós: “Como é bom dormir ao som da chuva.”
Será mesmo?

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