CAMAQUÃ (RS) – A recente postura do vereador Vinícius Araújo (MDB), ao utilizar a tribuna da Câmara Municipal para tentar fiscalizar e atacar a direção do Sindicato dos Servidores Municipais de Camaquã (SIMUCA), acendeu um alerta entre juristas e servidores sobre os limites da imunidade parlamentar e o risco de abuso de prerrogativas por agentes públicos eleitos.
Segundo especialistas, a imunidade dos vereadores não é absoluta. O Supremo Tribunal Federal já consolidou o entendimento de que a proteção parlamentar se restringe às manifestações ligadas ao exercício do mandato, e apenas dentro dos limites da circunscrição municipal. Ainda assim, atos de abuso, desrespeito ou intimidação não são cobertos por essa proteção.
“Quando um vereador tenta fiscalizar uma entidade privada de forma desrespeitosa, utilizando sua posição para constranger ou intimidar dirigentes e associados, ele ultrapassa os limites constitucionais de sua função”, destacou Dr. Mateus Müller, advogado do escritório Forbrig e Peltz, responsável pela assessoria jurídica do SIMUCA.
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Na sessão mencionada, Vinícius Araújo tentou questionar publicamente a gestão sindical e o convênio do cartão Tec Biz, mesmo sem ter comparecido à Assembleia Geral da categoria, onde a prestação de contas foi aprovada por unanimidade pelos associados e pelo conselho fiscal da entidade.
POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS JURÍDICAS E POLÍTICAS
Especialistas apontam que atitudes como a de Vinícius podem acarretar responsabilização nas esferas civil, penal e política:
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Responsabilização Civil e Penal: Vereadores não têm carta branca para ofender, caluniar ou difamar. A imunidade parlamentar não protege atos criminosos como injúria, coação, ameaça ou difamação contra entidades privadas.
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Quebra de Decoro Parlamentar: O abuso de prerrogativas pode resultar em procedimentos internos no Legislativo, culminando em advertência, suspensão ou até cassação do mandato.
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Atuação do Ministério Público: A depender da gravidade, a conduta pode ser apurada pelo MP, especialmente nos casos de abuso de autoridade ou tentativa de intimidação institucional.
A VERDADE DOS FATOS
A presidenta do SIMUCA, Carla Simone, reiterou a legitimidade da Assembleia Geral da entidade, realizada em julho, onde os associados aprovaram as contas do exercício 2023 e reforçaram a confiança na gestão atual.
“Estamos de portas abertas há mais de 35 anos, com transparência e compromisso com os servidores. Não aceitaremos ser palco de disputas políticas ou ataques infundados vindos de quem sequer comparece para dialogar”, afirmou Carla.
INTERVENÇÃO? NUNCA MAIS.
No entendimento jurídico já consolidado em diversos tribunais, não cabe intervenção ou tentativa de fiscalização externa a sindicatos por parte de vereadores ou gestores públicos, sob risco de violação da autonomia sindical — um dos pilares do regime democrático e constitucional brasileiro.
“Essa tentativa de intervenção nos remete a tempos sombrios da história, onde sindicatos eram perseguidos politicamente. Isso não se admite mais. A imunidade parlamentar jamais poderá ser escudo para práticas autoritárias travestidas de discurso público”, concluiu Dr. Mateus Müller.

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